Amor à primeira vista

6 de mai. de 2010


0
A partir de hoje, o Leia Primeiro reproduzirá aqui, regularmente, as crônicas de Maicon Tenfen. Escritor e colunista da RBS Santa Catarina (mais especificamente do Jornal de Santa Catarina e do Diário Catarinense), Maicon possui também vários livros publicados e, por sorte minha, foi meu professor de Literatura no Ensino Médio (uns 10 anos atrás). Assim, divirtam-se!






Começa com um esbarrão. Desculpe. Não foi nada. Quando se agacham para juntar os livros, as mãos se tocam levemente.
— Você acredita em amor à primeira vista?
Daí a um jantarzinho “simples” à luz de velas, basta um convite. Quando se dão conta, estão conversando na porta da casa dela.
— Amanhã é domingo, né?
— Pois é.
— Costumo caminhar no Ramiro… Me acompanha?
— Claro. Pode me telefonar.
— Não seria mais prático se eu te cutucasse?
Ambos concordam que o Amor não passa de uma invencionice da civilização ocidental. Fabricado pela pior literatura, só serve para criar problemas onde eles não existem. Um dia ele olha para ela e antropologicamente pergunta:
— Quer casar comigo?
Casam-se, lógico. A partir daí, viverão de comentar a mitologia que se construiu em torno dos dois:
— E pensar que tudo começou com um esbarrão.
— O acaso, meu bem. O bendito acaso.
Mas nesse tipo de história sempre tem um “mas”. Logo ela entra no quarto e solta um grito terrificante.
— O que foi, querida? Você se machucou?
— Não. Aquilo.
— Aquilo o quê?
E ela aponta a toalha molhada sobre a cama. Com ele acontece quando vai escovar os dentes e encontra um morcego morto, na verdade a lingerie dela, amarrotada e pingando sobre a torneira da pia. Após esse primeiro impacto, restará a rotina.
De manhã:
— Ô sua anta! Ainda não fez o café?
Ao meio-dia:
— Quer dizer que a porcalhona não vai lavar a louça?
À noite:
— Vem cá, minha pombinha. Deita aqui pertinho de mim, vai.
Conclusão: tudo no mundo muda, até as nossas mitologias pessoais:
— E pensar que começamos com um esbarrão.
— O acaso, meu bem. O maldito acaso.
— Não me culpe. Quando perguntei se você acreditava em amor à primeira vista…
— Justamente. Como me fez falta uma segunda avaliação.
 Acesse o blog do escritor aqui.

0 comentários:

Postar um comentário

Sugira, critique, elogie! Deixe seu comentário!