O cantinho da parede

17 de mai. de 2010


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Enquanto durou a lua-de-mel, não deram importância ao lado que ocupariam na cama. Dormiam às avessas, enrolados nos lençóis, com as cabeças no lugar dos pés e vice-versa. Até que um dia, no que ele vestia o pijama e se deitava, ela saiu do banheiro, aborrecida. Colocou as mãos na cintura, fez beicinho:

― O cantinho da parede.

― O que é que tem?

― É meu.

A face dele se contraiu numa careta de surpresa. Depois de breve hesitação, respondeu:

― Nem pensar. Cheguei aqui primeiro.

― E eu, como é que eu fico?

― Aqui, ó ― sorriu ele, dando tapinhas no travesseiro ao lado. Ela apagou a luz e começou a chorar. Foi a primeira noite, desde o casamento, em que deixaram de fazer amor. No dia seguinte, quando ele chegou do trabalho, ela já estava enfiada na cama. No cantinho da parede.

― Ah! É assim, é?

― É assim, sim. Daqui só saio morta.

A discussão engrossou. Houve gritos e palavrões. Lutaram. Ele agarrou os cabelos dela, mas ela, que tinha as unhas afiadas, reagiu inesperadamente. Terminaram exaustos, o quarto semidestruído. Ela venceu. Embora descabelada, toda doída e cheia de manchas roxas, conquistou o cantinho da parede.

E assim se passaram dez anos. Durante esse período, tentaram soluções conciliatórias, como dormirem em camas separadas para que cada um tivesse o seu próprio cantinho. Não funcionou. Numa outra época, posicionaram a cama bem no meio do quarto. Eliminado o cantinho, eliminariam também as brigas. Pura frustração. Para ambos, era melhor um cantinho na mão do que dois voando no céu. Sempre que brigavam, ele desabafava na hora da reconciliação:

― Perdoo você por tudo. Menos pelo cantinho.

Um dia ele bateu o carro e morreu. Durante o velório ela foi atacada por uma ideia dilacerante. Suicídio? Não, impossível, ele não faria uma coisa dessas. No rosto dele, porém, entre gaze e esparadrapo, todos puderam divisar um esboço de sorriso.

― Era um homem tão bom…

Na primeira noite em que ela deveria dormir sozinha, não conseguiu pregar o olho. Ficou sentada na cama, longe, muito longe do cantinho da parede.

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