Racismo Beletrista

11 de mai. de 2010


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O jornalista Lira Neto escreveu uma das melhores e mais recentes biografias do escritor e político José de Alencar (1829-1877), um dos pilares do romantismo brasileiro. Chama-se O Inimigo do Rei e traz um longo subtítulo: “a mirabolante aventura de um romancista que colecionava desafetos, azucrinava D. Pedro II e acabou inventando o Brasil”.

Essa história do “acabou inventando o Brasil” é a que aparece nos livros escolares. Ao lado de poetas como Gonçalves Dias, Alencar investiu no mito do heroísmo indígena e, atendendo às necessidades da época, ajudou a forjar aquilo que hoje conhecemos como identidade nacional.

A parte do “colecionava desafetos” também é conhecida. Polemista nato, Alencar não pensava duas vezes antes de redigir manifestos e atacar seus adversários, o que nos leva à passagem “azucrinava D. Pedro II”, o mais poderoso dos seus inimigos. Como indica o título, o livro de Lira Neto se concentra nas incontáveis desavenças entre o romancista e o imperador.

Em 1867, por exemplo, quando D. Pedro sinalizou interesse em abolir da nação o “elemento servil”, eufemismo empregado para evitar palavras como escravos, açoites e outros afins constrangedores, Alencar sacou a pena e, sob o pseudônimo de Erasmo, publicou 7 cartas em defesa do cativeiro, segundo ele “uma instituição justa, útil e moral”. Contra leis ou decretos abolicionistas, chegou a defender que a escravidão era benéfica aos escravizados, pois fazia com que uma “raça bárbara” entrasse em contato com a “raça branca” e assim acelerasse a sua “evolução cultural”, civilizando-se.

Em palavras mais diretas, o homem era um racista empedernido, mas isso ficou oculto dos estudantes porque As Novas Cartas de Erasmo, título das diatribes contra a abolição, foram prudentemente excluídas de suas Obras Completas. Agora, porém, temos acesso aos textos, renomeados como Cartas a Favor da Escravidão.Eis um belo exemplo de que, às vezes, estudar literatura significa desmitificar os ícones nacionais.

Recomendo a leitura, mas também cautela para que o livro não se torne mera artilharia politicamente correta. Será uma boa oportunidade para o leitor se perguntar o que significava acreditar em “raças superiores” no século 19 e o que a mesma coisa significa hoje em dia. Além de fazer, é claro, uma bela reflexão sobre a hipocrisia da sociedade brasileira.

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