Simples sugestão

23 de mai. de 2010


0
Sempre acontece quando me sento para escrever. A maravilhosa ideia que trago na cabeça de repente se transforma numa dúvida atroz: será que realmente tenho algo a dizer (e pior, a acrescentar) sobre tal assunto? Recorro a amigos, claro, peço que me deem uma luz, folheio os jornais, as revistas, procuro novas informações a respeito do tema na internet.

Hoje fiz diferente. Em vez de repetir a ladainha e a tortura mental de cada semana, pedi a opinião da minha filha de onze anos:

— O que você acha da crise bélico-religiosa no Oriente Médio?

Tudo bem, eu admito, o desespero faz essas coisas. Na hora de escrever, você se torna um monstro capaz de chatear as crianças com essas estúrdias cogitações políticas e metafísicas. Para meu espanto, porém, minha filha me levou a sério e não recuou diante da pergunta.

— Xi, pai, acho que seus leitores não estão interessados nessa coisa aí.

— Ah, não? E como é que a senhorita sabe?

— Sabendo, oras. Por que não escreve sobre um mundo melhor?

— Que coisa mais sem graça, filha! De onde você tirou essa ideia?

— Da minha escola. Foi uma redação que a professora pediu pra gente fazer no ano passado.

— Até que seria legal, só que esse tema tá muito batido, sabe?

— Batido? Alguém sofreu um acidente de carro?

— Engraçadinha. Olha, não me leve a mal, mas os leitores da coluna não veriam uma coisa dessas com bons olhos.

— Que coisa dessas?

— Que alguém como eu, que faz pose de cínico, escreva sobre um assunto tão cor-de-rosa.

— Credo, pai! O que as cores têm a ver com um mundo melhor?

— Nada, filha, quer dizer, tudo… Ah, você está me confundindo! Mas tá bom, espertinha, eu me rendo. Fale você sobre o seu mundo melhor.

— Simples. As pessoas só precisariam se lembrar de olhar para o céu.

— Que papo é esse, pô? Está se referindo à importância da religiosidade na vida das pessoas?

— Não, pai, estou me referindo ao céu mesmo. Se as pessoas se lembrassem de olhar para o céu, à noite, e tentassem contar as estrelas, tenho certeza de que o mundo seria um lugar bem melhor.

“Meu filho me ensinou a ver o mundo com os olhos livres”, escreveu Oswald de Andrade. Faço minhas as palavras dele. E algum dia, como retribuição, espero ter a capacidade de ensinar à minha filha pelo menos a metade do que ela me ensinou hoje.

0 comentários:

Postar um comentário

Sugira, critique, elogie! Deixe seu comentário!