José Saramago: o evangelista sem meias palavras

21 de jun. de 2010


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A palestra era numa escola dirigida por freiras. Na hora das perguntas, um menino da sétima série quis saber qual o melhor livro que li em toda a minha vida. Como a curiosidade é recorrente em bate-papos sobre leitura, eu tinha a resposta na ponta da língua:

— Um romance chamado O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Aí expliquei que se tratava de um livro adulto, com linguagem bem elaborada, que os estudantes talvez achassem difícil e meio chato, mas que certamente, quando crescessem um pouco mais como leitores, curtiriam a experiência de ler uma grande obra do nosso tempo.

Ao que acrescentei:

— O Prêmio Nobel existe há mais de cem anos. Alguém saberia me dizer quantas vezes ele foi atribuído a escritores de língua portuguesa?

Diante do silêncio, levantei o dedo como quem pede uma cerveja:

— Uma vez! Uma única vezinha! Isso aconteceu em 1998. E quem ganhou foi um português, um tal de José Saramago, o autor do livro que acabei de citar, o melhor que li em toda a minha vida.

Era uma fala sincera, mas corriqueira, que eu repetia em praticamente todas as minhas palestras escolares. Naquele dia, porém, algo inesperado aconteceu. Pouco antes do final, uma das freiras — acho que diretora ou coordenadora pedagógica — passou a mão no microfone e, toda sorridente, fez questão de dirigir algumas palavras a mim e aos alunos:

— Vejam, meus jovens, que coisa bonita. Esse rapaz que veio falar de leitura, que já leu e escreveu tantos livros, quando perguntado sobre a obra mais marcante de sua vida, escolheu logo uma que fala de Jesus. Eu não disse, crianças? Eu não disse que Cristo está em todas as belas coisas do mundo? Vamos aplaudir!

Fui obrigado a rir, mas acrescento que ri com toda a consideração que tenho pelas instituições (uma consideração que quase acabou depois que conheci Saramago), já que me encontrava no centro de uma comédia em função. Como explicar à freira e aos seus pupilos que o Evangelho Segundo Jesus Cristo é uma heresia? Logo nas primeiras páginas, quando Saramago nos apresenta José e Maria em pleno ato sexual, o mito da concepção divina, um dos maiores da cristandade, é tratado com a mesma irrelevância das rotinas conjugais.

E isso é apenas a porta de entrada para uma série de vertiginosos questionamentos sobre a crença que moldou a cultura ocidental. Não por acaso, quando o Evangelho foi lançado, no início dos anos 1990, chegou a ser proibido em Portugal, fato que levou Saramago a se autoexilar na ilha espanhola de Lanzarote, onde viveu com a esposa Pilar del Río até ontem, o último dos seus dias.

Lembro que hesitei antes de continuar falando sobre o Evangelho. Eu estava num colégio de orientação religiosa e, convenhamos, não há nada pior que causar constrangimentos gratuitos. Poderia, por exemplo, entabular elogios a Ensaio Sobre a Cegueira, o romance mais famoso do autor, ou ao Memorial do Convento, de teor igualmente crítico no campo da história, ou ainda ao kafkiano Todos os Nomes, um verdadeiro tratado sobre a identidade, ou a falta de, nos dias de hoje. Todos livros monumentais, que me permitiriam continuar discorrendo sobre Saramago.

Entretanto, se eu fizesse isso, estaria traindo o legado do mestre e provando a mim mesmo que a leitura, afinal de contas, é uma prática estéril. A verdade é que Saramago nunca desrespeitou as instituições, sejam elas políticas ou religiosas. Questionou-as, isso sim, com sarcasmo e até intransigência, mas também com o desejo de chamar a atenção do mundo para os seus problemas reais: a ignorância, a fome, a violência. É por isso que, no Evangelho, o Jesus que vemos é um homem como outro qualquer. Eis a grande contribuição de Saramago: humanizar deus (aqui com minúscula) para endeusar o Humano (aqui com maiúscula).

Foi mais ou menos isso que tentei explicar à freira e aos alunos antes de me despedir. Não sei se entenderam o que quis dizer, tampouco sei se fui claro, mas o fato é que voltaram a bater palmas. E esses aplausos, sempre tive certeza, não eram dirigidos a mim, mas ao autor dessas ideias, ao mestre português, José Saramago.

1 comentários:

Arthur Mendonça Meskelis disse...

Muito bom, parabéns pela manutenção da postura em frente a pessoas que possivelmente atirariam pedras sem pestanejar. A idade da razão nos apareceu a muito tempo atrás, temos que trabalhar para não destruir esse legado.

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