Pérolas literárias

9 de jun. de 2010


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Pelo menos quatro vezes nos dois últimos anos, todos devem ter recebido aquelas listas com as pérolas descobertas nas redações de vestibular. Exemplos: 
— “O problema fundamental do terceiro mundo é a superabundância de necessidades.” 
— “Em Esparta, as crianças que nasciam mortas eram sacrificadas.” 
— “Oceano é onde nasce o Sol. Onde ele nasce é o nascente e onde ele desce é o decente.” 
Desconfio que, entre as pérolas autênticas, deve ter muita coisa inventada pelos espíritos brincalhões que povoam a internet, pois não é possível que os estudantes brasileiros — mesmo os estudantes brasileiros! — sejam tão burros e distraídos. 
Seja como for, semear pérolas num texto não é privilégio de vestibulandos relapsos. Também abundam na internet as pérolas encontradas nos grandes jornais. São muito mais divertidas, já que fatalmente imaginamos a cara do assinante tentando entender o que está escrito. Exemplos: 
— “A polícia e a justiça são as duas mãos de um mesmo braço.” 
— “Ao que tudo indica, a vítima foi morta pelo seu assassino.” 
— “À chegada da polícia, o cadáver se encontrava rigorosamente imóvel.” 
Mas não adianta ficar tirando sarro de estudantes e jornalistas. Hoje meu objetivo é enumerar algumas pérolas fabricadas por escritores, teoricamente os guardiões da correção e da elegância da língua. Encontrei a lista em 2666 (o título é assim mesmo, em números), extraordinário romance do chileno Roberto Bolaño (1953-2003) publicado há pouco pela Companhia das Letras. Lá vai: 
— “Pobre Maria! Cada vez que percebe o ruído de um cavalo que se aproxima, tem certeza de que sou eu.” (Chateaubriand). 
— “Vamos embora!, disse Peter procurando seu chapéu para enxugar as lágrimas.” (Zola). 
— “Com as mãos cruzadas nas costas, Henry passeava pelo jardim, lendo o romance do amigo.” (Rosny). 
— “O cadáver esperava, silencioso, pela autópsia.” (Feuillet). 
— “Guilherme não imaginava que o coração pudesse servir para algo mais que a respiração.” (Argibachev). 
— “Começo a enxergar mal, disse a pobre cega.” (Balzac). 
— “Depois de cortarem a sua cabeça, enterraram-no vivo.” (Zvedan). 
— “Tinha a mão fria como a de uma serpente.” (Ponson Du Terrail).

1 comentários:

Caio Henrique disse...

ótimo post cara.... muito engraçado...

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