Como destruir uma canção

28 de jul. de 2010


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Quem assistiu à cinebiografia de Charles Chaplin deve se lembrar da cena em que Robert Downey Jr., no papel título, recebe a visita de um engenheiro de som. O cinema mudo estava com os dias contados, mas Chaplin, cismando que o Vagabundo jamais deveria falar, dispensou o engenheiro e lutou para se manter fiel às origens. Foi uma percepção de gênio. Se o Vagabundo falasse, o Vagabundo morreria. Como um mímico silencioso, tornou-se uma das figuras mais conhecidas do século 20.

A despeito dessa passagem tão importante na trajetória de Chaplin e do próprio cinema, a sonorização dos filmes não trouxe apenas os diálogos e os ruídos do set, mas também a combinação harmônica entre som e imagem. O que seria do cinema sem a música? Ou, por outra, o que seria da música sem o cinema? Se é fato que muitos filmes se destacam pela trilha sonora, também o é que muitas canções, por evocarem sequências cinematográficas inesquecíveis, adquiriram novos status e significados.

In Dreams, por exemplo, de Roy Orbison, era apenas uma canção romântica. Depois que foi usada por David Lynch em Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), tornou-se sinônimo de esquizofrenia e depravação. Por outro lado, há canções compostas diretamente para a tela que transcenderam os filmes originais e se transformaram em símbolos de gêneros cinematográficos. Cito dois ícones do cinema de ação: os temas principais de Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) e Três Homens em Conflito (The Good, the Bad and the Ugly, 1966). Sempre que ouvimos os acordes da primeira música, lembramos os filmes de artes marciais. No caso da segunda, visualizamos os animados tiroteios dos spaghetti westerns.

Mas nem tudo são flores na conjugação de som e imagem. Aliás, tenho uma pequena teoria para a questão: quando o uso da música é artístico, beleza; quando, porém, é publicitário ou político, danou-se. Duvido que você não se lembre do Love Theme de O Caçador de Androides (Blade Runner, 1982), mas também duvido que você consiga desvencilhá-lo das propagandas de motéis. Alguém ainda consegue ouvir New Sensation, do INXS, sem se lembrar do “novo Corolla da Toyota” ou, pior, do Brad Pitt? E As Quatro Estações, de Vivaldi? Vai um sabonete aí?

Mas a pior aconteceu com o compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Desde que Hitler adotou sua obra como símbolo da supremacia ariana, ficou impossível ouvir a Cavalgada das Valquírias sem visualizar a suástica. É o melhor exemplo de como destruir uma canção.

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