Por que estudar

8 de jul. de 2010


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— De que me adianta essa matéria?
Eis uma perguntinha corrente entre os estudantes brasileiros. O professor tenta entabular uma conversa sobre análise sintática, ou sobre a velocidade da luz, ou ainda sobre uma equação do segundo grau, e em troca recebe a má vontade travestida de pragmatismo, nem mais, nem menos.
— Em “quéque” vou usar isso na minha vida? — emendam os alunos.
E os professores, pelo menos os que sucumbiram às falácias da pedagogia moderna, veem-se obrigados a fazer peripécias argumentativas para convencer os pupilos da utilidade de tal e qual matéria.
— É para dar um “up” na sua inteligência linguística.
— É para conhecermos uma descoberta fundamental para a humanidade.
— É para desenvolver o seu raciocínio lógico.
Em muitos casos, a discussão sobre o PORQUÊ de estudar um determinado assunto acaba se tornando mais importante que o assunto em si mesmo, de modo que os professores, no fundo, estariam mais empenhados em debater a epistemologia da educação do que a sua área específica de conhecimento. Tudo porque os estudantes de hoje são muito “antenados” e, para que o processo ensino-aprendizagem funcione a contento, precisam ser convencidos a se dedicar aos estudos.
Cá do meu canto, digo que tudo isso é bobagem. Questionar a validade de um conhecimento pode ser o primeiro passo em direção à ignorância. Afinal de contas, quem ensinou os estudantes a fazer esse tipo de pergunta? Rapidamente, quando não estão interessados em aprender, eles concluem que nada é importante, nada merece atenção, nada será útil na nossa vida.
Eu mesmo já fiz isso, por isso falo com a experiência de um ignorante arrependido. Se, em priscas eras, tivesse me dedicado mais a aprender a matéria sugerida pelo professor e menos a questionar os possíveis benefícios do assunto para o meu futuro, é certo que hoje estaria escrevendo menos tolices e cometendo menos gafes nesta coluna.
Como professor, também passei pelo calvário de tentar convencer os adolescentes a enxergarem a utilidade da minha matéria. Nunca deu certo. Até que um dia enchi o saco e chutei o pau da barraca de uma vez:
— Por que vocês precisam estudar literatura? Ora por quê! Como dificilmente encontro alguém disposto a conversar sobre livros e autores, vocês foram colocados aí para me ouvir! Abram o livro na página 109, por favor, já perdemos tempo demais com conversa fiada.

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