Tráfico: a culpa é do cheirador

3 de ago. de 2010


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William S. Burroughs (1914- 1997) foi um dos escritores mais malucos do século 20. Pioneiro da literatura experimental em que abundam o inusitado e o absurdo (e muitas vezes o “chato”), costumava escrever sob o efeito de alucinógenos poderosos.
Deve ser por isso que Almoço Nu, sua obra mais famosa, tornou-se uma espécie de alegoria do submundo das drogas. Tido por muitos como um romance inadaptável, acabou virando filme – um dos mais interessantes de 1991 – nas mãos de David Cronenberg.
No prefácio à edição brasileira de Almoço Nu, Burroughs abandona sua verve escatológica e, com a “autoridade” de quem conhece o tema nas veias, faz considerações bastante sóbrias sobre o que chama de “as três pontas da pirâmide das drogas”: o produtor, o distribuidor e o consumidor.
Para que haja consumo, diz Burroughs, é preciso que essas três pontas funcionem em harmonia. Sem produtor não há distribuidor, sem distribuidor não há consumidor, e vice-versa. Portanto, para dinamitar a pirâmide, basta que uma das pontas seja atingida com eficácia.
Desde que as drogas se tornaram um problema público, as autoridades se empenharam em combater os distribuidores e, numa escala menor, os produtores. É um equívoco grotesco, porque são justamente as pontas da pirâmide que possuem razões econômicas para se restabelecer e voltar a operar com mais organização.
Burroughs dá a entender que, quanto mais a polícia persegue os traficantes, mais a distribuição de drogas se aperfeiçoa e se fortelece. O mesmo pode ser dito dos produtores. Acabe com uma plantação de coca na Colômbia e outras dez surgirão no Suriname para substituí-la. É a lei das cadeias “produtivas”: enquanto houver consumo, haverá produção e distribuição de entorpecentes.
E é assim que chegamos ao óbvio: o combate eficiente à disseminação da droga pressupõe que a maioria dos esforços sejam destinados à redução do consumo. De maneira geral, os consumidores não possuem razões econômicas para sustentar a sua ponta da pirâmide. Sua capacidade de organização é limitada e muitas vezes inexistente.
Através da prevenção e da conscientização, é possível mirar a ponta certa da pirâmide. Mais do que isso, porém, precisamos de uma legislação menos permissiva para o consumidor. Se já existem leis que punem motoristas embriagados, por que insistimos em chamar de vítimas os usuários de maconha, cocaína, crack e LSD?

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